Brasília, 28 de novembro de 2003

Chiara Lubich coloca a fraternidade como horizonte no qual é possível pensar em um bem comum a todos os homens, ou seja, pensar na humanidade inteira em termos políticos. Agir nesta direção é tarefa e meta imprescindíveis para a política.    

Ilustres senadores e deputados,

Autoridades presentes,

Senhoras e senhores,

Prezados amigos.

Hoje, os senhores estão reunidos em Brasília, no Congresso Nacional, provenientes dos vários Estados do Brasil, para participar do segundo Encontro Nacional do Movimento Político pela Unidade, que nasceu em Nápoles, na Itália, em 1996. Esse Movimento teve, no prazo de poucos anos, um desenvolvimento surpreendente.

O Encontro Nacional de hoje é um sinal da sua difusão no Brasil, nação que amo muito, pois o seu povo, de grande coração e inteligência, há muitos anos acolhe de modo extraordinário o carisma que a bondade de Deus quis a mim confiar. Não podendo comparecer pessoalmente, como teria desejado, hoje dirijo-me aos senhores por meio dessa mensagem.

No intuito de lhes dizer algo que possa servir de farol e de estímulo para o trabalho que fazem a serviço do bem comum, acho que convém fixarmos a nossa atenção sobretudo no tempo em que vivemos.  

Como todos podemos constatar, apesar dos conflitos e das guerras ainda existentes no mundo, apesar também da injusta divisão dos recursos da terra e das desigualdades sociais e culturais, apesar da violência terrorista, que estamos experimentando nesses dias, a fraternidade universal e a unidade de todos os homens, objetivos do «Movimento Político pela Unidade», hoje mais do que nunca são uma aspiração profunda da humanidade e uma verdadeira necessidade.

Aliás, a unidade é um "sinal dos tempos" – como se diz hoje –, que emerge distintamente, sobretudo no campo civil, entre Países Europeus e entre outros países do continente Africano e Sul-americano, os quais trabalham, de maneiras diferentes e por objetivos diferentes, em vista da própria unificação. Tal como emerge também entre as numerosas entidades e organizações internacionais voltadas à construção da unidade.

No campo religioso este sinal dos tempos emerge de certas correntes como a do ecumenismo, que já invadiu o mundo cristão com um espírito de reconciliação e de comunhão, e com o desabrochar de eventos em que se promove o diálogo inter-religioso em favor da paz, cuja máxima expressão foram os dois encontros de Assis, promovidos por João Paulo II.

 Neste contexto, trabalhar exatamente pela unidade dos povos, respeitando as suas mais variadas identidades, é o que melhor podemos fazer para alcançar o próprio objetivo da política, o maior bem comum que se pode esperar.

Contudo, qual é o método e o caminho para atingir esta meta? 

Para atingir este objetivo tão elevado e exigente, nada melhor do que difundir em toda a parte do mundo uma forte corrente de fraternidade. Ela é o maior dom de Jesus à humanidade. Antes de morrer, Ele rezou: «Pai (...) que todos sejam um» (cf. Jo 17,21) e, revelando a paternidade de Deus, infundiu na humanidade a idéia da fraternidade universal.

De resto, a fraternidade é também uma categoria fundamental do grande projeto político da modernidade, sintetizado no lema da Revolução Francesa: «Liberdade, igualdade, fraternidade». É um ideal justo, mas que não foi completamente realizado. De fato, se numerosos países, instaurando um regime democrático, conseguiram, de certo modo, realizar a liberdade e a igualdade, a fraternidade permaneceu mais nos discursos do que nos fatos.

Como muitos já sabem, o objetivo específico do Movimento Político pela Unidade é ajudar e ajudar-se reciprocamente a viver sempre na fraternidade. Os políticos que a ele aderem acreditam nos valores profundos, eternos do homem, colocam a fraternidade como base de suas vidas e só depois é que se mobilizam na própria ação política.

De fato, é a fraternidade que pode fazer florescer projetos e ações no complexo tecido político, econômico, cultural e social do nosso mundo. É a fraternidade que faz sair do isolamento, abrindo as portas do desenvolvimento aos povos que ainda permanecem excluídos. É a fraternidade que indica como resolver pacificamente as controvérsias e que relega a guerra aos livros de história. É em virtude da fraternidade vivida que se pode sonhar (e até mesmo esperar) com alguma forma de comunhão de bens entre países ricos e pobres, já que o escandaloso desequilíbrio, que existe hoje no mundo, é uma das causas principais do terrorismo.

A profunda necessidade de paz, que a humanidade hoje expressa, demonstra que a fraternidade não é só um valor, não é só um método, mas o paradigma global de desenvolvimento político. É por isso que o mundo, tornando-se cada vez mais interdependente, precisa de políticos, de empresários, de intelectuais, artistas que coloquem a fraternidade – instrumento de unidade – no centro do próprio pensar e agir. Era esse o sonho de Martin Luther King: que a fraternidade se torne a ordem do dia de um homem de negócios e a palavra de ordem do homem de governo. Os políticos do Movimento Político pela Unidade querem que esse sonho se torne realidade.

Para eles, a própria opção política é um ato de amor, por meio do qual cada um responde a uma autêntica vocação, a um chamado pessoal. Quem possui uma fé religiosa sabe que é Deus mesmo a chamá-lo por meio das circunstâncias; quem não tem um referencial religioso responde a uma exigência humana, a uma necessidade social, a um problema da sua cidade, aos sofrimentos do seu povo, ecoam na própria consciência: mas é sempre com o amor que ambos animam a própria ação. 

Além disso, os políticos da unidade tomam consciência de que a política é, na sua raiz, amor; e isso os leva a compreender que também o outro, o adversário político, pode ter feito a própria escolha por amor, e por isso merece respeito. Aliás, o político da unidade deseja que também o seu adversário realize o projeto bom de que é portador, pois (se responde a um chamado, a uma verdadeira necessidade) é parte integrante daquele bem comum que só unidos podemos construir. O político da unidade procura vivenciar o aparente paradoxo de amar o partido alheio como o próprio, porque o bem do país precisa da ação de todos.

Outro aspecto da fraternidade na política é a capacidade de saber escutar, de buscar entender a visão do outro. Isso nos ajuda a nos identificarmos com todos, também com os adversários, e a estarmos abertos aos que eles propõem. Essa atitude ajuda a superar as visões parciais e revela aspectos das pessoas, da vida, da realidade, que ampliam também o horizonte político. O político, que aprende a arte de "fazer-se um" com todos, torna-se mais capaz de compreender e de propor iniciativas.

E ainda mais, a fraternidade encontra a sua total expressão no amor mútuo; elemento de que a democracia, se compreendida com retidão, precisa muito: amor dos políticos entre si, entre os políticos e os cidadãos. O político da unidade não se satisfaz em amar sozinho, mas procura suscitar no outro, aliado ou adversário, o amor, pois a política é relação, é projeto comum.

Por fim, uma última ideia fundamental que guia os políticos da unidade é que a pátria alheia deve ser amada como a própria; a maior dignidade para a humanidade seria, de fato, aquela de não se sentir um conjunto de povos muitas vezes em luta entre si, mas, graças ao amor recíproco, um único povo, enriquecido pela diversidade de cada um e, por isso mesmo, guardião, na unidade, das diferentes identidades.

Todos esses aspectos do amor político, que realizam a fraternidade, exigem sacrifício.

Quantas vezes a atividade política é fonte de solidão, de incompreensão por parte, inclusive, dos mais próximos!

Todavia, sabemos que no mundo não se faz nada de bom, de útil, de fecundo sem conhecer, sem saber aceitar a fatiga, o sofrimento, em uma palavra: a cruz.

Não é uma brincadeira empenhar-se em construir a unidade! É preciso ter coragem. É preciso saber sofrer. 

Pois bem, é nesse momento que o Cristo crucificado-ressuscitado pode ajudar o político. Jesus, mesmo experimentando o abandono do Pai – «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mc 15,34) –, volta a abandonar-se nele - «Em tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23,46) – para, depois, ressuscitar, demonstrando que «o amor vence tudo».

Seguindo o seu exemplo, o político da unidade é aquele que abraça as divisões, as rupturas, as feridas da própria gente. De fato, é esse o preço da fraternidade que lhe é pedido: preço altíssimo, como altíssimo é também o prêmio. A sua fidelidade custe o que custar fará desse político um modelo, um ponto de referência para os seus concidadãos, o orgulho de sua gente.

Esses são os políticos que o Movimento Político pela Unidade, com a ajuda de Deus, deseja gerar, nutrir, apoiar.

Faço votos de que o encontro de hoje confirme a opção que cada um fez de viver a fraternidade na política. Graças a ela, muito, tudo podemos esperar para o Brasil, mas também para o mundo, no campo da justiça, da paz, da unidade.

Chiara Lubich

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