Deus te ama imensamente

Quanto desejo ter você ao meu lado agora
para conversarmos, falarmos.
Gostaria de lhe narrar toda a grandeza e o amor de Deus.
E lhe dizer palavras
que antes não conhecia,
mas só intuía,
e que só agora conheço1

Chiara Lubich: Dio ti ama immensamente - pensieri scelti su Dio Amore“Deus te ama imensamente” é o título do novo livro de Chiara Lubich, publicado recentemente pela editora Città Nuova e organizado por Caterina Ruggiù e Michel Vandeleene. Um pequeno e prático livro, que reúne mais de 150 pensamentos e aforismos extraídos sobretudo de cartas escritas nos primeiros tempos do Movimento dos Focolares. Pensamentos em que arde a chama do amor que foi acendida por Deus no coração da jovem Chiara e que ainda hoje a contagia. Pensamentos que ajudam a olhar para cada coisa com os olhos de Deus e a transformar cada sofrimento em amor.

Introdução

Este é um livro que fala por si só: fala de temáticas fundamentais, em que comumente refletimos, com uma linguagem simples, mas não banal. São temáticas religiosas, certamente – Deus Trindade, a relação com Deus e com o próximo, o Evangelho e a Bíblia –, mas também profundamente humanas, porque abordam questões que muitas vezes a humanidade levanta, resolvendo-as de várias maneiras: o sentido do tempo que passa, da vida e da morte, a vida no Além, o valor do sofrimento, a interação entre a ação externa e a coerência interior. As frases de Chiara Lubich, que compõem este pequeno volume, extraídas sobretudo de várias cartas endereçadas, na década de Quarenta, a amigas e pessoas com quem ela tinha contato, não pretendem dar respostas a tais questões. Dar sentenças e ter atitudes moralistas não faziam parte das intenções dessa jovem, que na época tinha pouco mais de vinte anos, muitos menos era uma característica do seu ser; Chiara refletia, nas suas, outras palavras já ditas e escritas, as Palavras eternas escritas nos Evangelhos, que provavelmente alguém ensinou também a nós.

Nada de novo, então? Por que uma pessoa deveria se interessar por este livro? A novidade do enfoque renova inclusive a mensagem: uma mensagem desde sempre revolucionária, mas que precisa sempre de expressões diferentes para ser descoberta na sua perene originalidade. E o enfoque da jovem Chiara, não há dúvidas, tem algo especial: é o olhar de uma jovem apaixonada. O amor é o alfa e o ômega dessas páginas, o fim e o meio de cada exortação, tal como foi para toda a vida de Chiara. Quem pode afirmar que não conhece o amor?

Bento XVI, na sua primeira encíclica, focava a atenção no «vasto campo semântico da palavra “amor”» (Deus caritas est, 2), nós vários tipos de amor que os seres humanos encontram, sobre os quais – são ainda as palavras do Papa – «emerge como arquétipo de amor por excelência» aquele entre o homem e a mulher. O amor a Deus e por Deus, que Chiara contempla nos seus vários aspectos, é tão cativante que apresenta características semelhantes ao amor humano, de modo que, quem experimentou a força impetuosa do enamoramento, a alegria permeada de sofrimento que comporta o vínculo com o outro, a medida do amor de que o nosso coração é capaz, consegue compreender ainda melhor as propostas da Autora, atuáveis diariamente na sua veste extraordinária. Porque Chiara escolheu Deus como único esposo da sua alma, e convida os destinatários dos seus escritos a fazer o mesmo.

Mas não é este o ponto de partida. Só quem recebeu – é evangélico, além de lógico – pode dar. Chiara Lubich continua a calcar com força um conceito que desde sempre constitui o cerne da fé cristã, mas que, por muito tempo ficou soterrado, só emergiu na Igreja recentemente e ainda não foi totalmente interiorizado: Deus é Amor (cfr. 1 Jo 4,8), como os últimos Papas voltaram a anunciar.

É uma característica incrível do carisma doado a Chiara ter feito emergir,  mais de duas décadas antes do Concílio Vaticano II, aspectos da mensagem cristã até pouco tempo atrás pouco ou por nada considerados que, além de oferecer uma visão mais completa do Deus de Jesus Cristo, podem simplificar o quotidiano de quem se compromete a viver a própria fé em cada circunstância.

Uma boa notícia, portanto, em todos os sentidos, que leva a esquecer as preocupações diárias (Pedro convidava a lançar em Deus as preocupações, «porque ele cuida de vós»; 1 Pd 5,7), passando pela certeza de que Deus ama cada pessoa e o desmonstrou, dando a vida por nós («O filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos», Mt 20,28), pela infinita misericórdia de Deus («Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso», Lc 6,36); etc. Para cada pensamento de Chiara se poderia encontrar uma citação bíblica que serve de fonte autorizada.

A novidade do seu ponto de vista depende também do contexto em que ela comunica os seus pensamentos. São os anos da  Segunda Guerra Mundial e os sucessivos a ela, em Trento. Muitas vezes, por trás das afirmações de Chiara, percebe-se o eco das bombas que caem e as profundas exigências de renovamento. Por esse motivo, as frequentes alusões à morte, não são sinal de um pensamento pessimista ou de um convite à tristeza: a morte, na guerra, é experiência quotidiana. Deriva daí, um convite a viver cada momento com plenitude, almejando o que realmente vale. Ainda, o sofrimento se revela no seu papel construtivo: o convite é não só para aceitar o sofrimento, mas também para  “desejá-lo”, porque é uma declinação do sofrimento que Jesus na cruz experimentou por nós. As palavras de Chiara Lubich alçam voo quando se trata de doar aos seus destinatários Jesus abandonado (cfr. Mt 27,46; Mc 15,34): um Deus que, por amor, se esquece de ser Deus, assim ela se exprime. É o esquecimento querido por quem penetra totalmente na pessoa amada, até não se recordar mais de quem ela mesma é.

As afirmações de Chiara, que encontramos neste percurso, têm a força e a evidência concreta do mestre, que quer ensinar verdades que não veem dele. Mas exprimem também a delicada eficácia da prosa artística, diria mesmo poética, como neste trecho: «Desapareceram as preocupações pelo amanhã: Jesus não as deseja. Se você quiser se preocupar, Ele o abandonará. Mas se você abandonar tudo no seu amor, Ele mesmo se preocupará com você, num modo extraordinário». Por vezes acontece que o pensamento de Chiara, jamais ambíguo, fruto de uma vida totalmente renovada, se choque, por motivos já mencionados, com os limites impostos por uma linguagem que se atualiza lentamente: expressões em uso na época, hoje em dia são antiquadas ou adquiriram uma conotação diferente, inclusive correndo o risco de serem mal-entendidas. Um conceito básico e muito frequente, por exemplo, é o da misericórdia de Deus: outro modo para definir o seu amor, que fracassaria (metáfora ousada) se não tivesse que perdoar todos os dias os nossos pecados, tal como o fogo precisa de lenha e papel para arder. Ou, do momento em que tudo se move ao redor da certeza de que Deus é Amor, por vezes Chiara fala simplicemente de «Amor» quando quer definir – por antonomásia – Deus. Deste núcleo conceitual nasce, como por uma explosão, todo o Movimento dos Focolares.

Chiara Lubich apaga a ideia de um Deus vingador e juiz, revelando a sua natureza de Amor. Mas o Amor pede para ser amado: nisso ela vê, desde muito jovem, a sua missão, e repetidamente convida a não poupar nada de si para Deus, vivendo com integridade e radicalismo. Por isso Chiara escreve que somente Deus tem valor: não porque os aspectos da humanidade não sejam bons, mas porque somente em Deus eles encontram razão de ser. Não se trata de vir a ser eremitas, mas de restituir a Deus o lugar que lhe cabe na graduatória dos afetos, de tornar divinos   – eternos, estáveis, verdadeiros – os outros amores, remetendo-os ao amor a Deus. «Quando o íntimo do nosso ser é de Deus, também as outras coisas terão valor», escreve. Mesmo sem anular o humano e o terreno, Chiara pede para que tudo seja revisto segundo a ótica da descoberta luminosa de que Deus é Amor.

A tarefa é árdua. A Autora mesma se dá conta disso e tranquiliza quem não consegue: «Também eu caio». Talvez seja esta a mensagem mais marcante destas páginas: o que conta não é ser perfeitos já e agora, mas recomeçar sempre, vivendo pelos outros e amando. Chiara é a primeira a fazê-lo, se considera partícipe desses esforços, mostrando que a santidade está ao alcance de todos.

Muitos personagens famosos, colocaram em circulação elencos de aforismos que,  de modo sintético e incisivo, atingem o centro das questões mais variadas. Pela primeira vez, este prático livrinho oferece uma tão linda coleção de pérolas, selecionadas dos escritos de Chiara Lubich. Quem sabe se alguma leitora ou leitor, tocado por uma afirmação eficaz, sentirá a necessidade de transcrevê-la num diário ou num bilhete de felicitações fora dos esquemas; como por vezes se faz com aquelas frases que exprimem o que nós mesmos sentimos e pensamos, mas que temos a impressão de não conseguir exprimir “tão bem” assim… aquelas frases que gostaríamos de lembrar sempre, para que nos ajudem a viver o que interiormente sentimos ser o nosso verdadeiro destino.

Maria Chiara Janner

1 Carta de abril de 1945

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