Uma maneira inesperada de viver o centenário de Chiara Lubich. Artigo de Maria Voce no “Osservatore Romano”

«Celebrar para encontrar» é o lema que, como Movimento dos Focolares, escolhemos para lembrar em 2020, em todo o mundo, os 100 anos do nascimento da nossa fundadora Chiara Lubich. Até algumas semanas atrás, esse lema nos parecia uma escolha apropriada para celebrar, das mais variadas formas, a pessoa da nossa fundadora e o carisma que Deus lhe deu e que ela transmitiu generosamente. De fato, queremos que as pessoas a encontrem viva hoje e não a recordem com uma memória nostálgica; que a encontrem em sua espiritualidade, em suas obras e, sobretudo, no seu “povo”, isto é, naqueles que vivem no presente seu espírito de fraternidade, de comunhão, de unidade

E, a partir do dia 7 de dezembro, nos regozijamos com os muitos eventos que se realizaram no mundo inteiro.

E gostaríamos que a festa continuasse. Mas, em pouco tempo, o cenário mudou e o lema «Celebrar para encontrar» corre o risco de parecer anacrônico: nós também suspendemos todo tipo de celebração ou evento.

A epidemia causada pelo Coronavírus está forçando muitos países do planeta a tomar medidas drásticas para deter o contágio: o isolamento e o distanciamento físico são os instrumentos mais eficazes no momento. Podemos constatar isso através dos sinais que nos chegam da China, que há semanas acompanhamos com apreensão. Mas aqui na Itália e em vários outros países do mundo a situação ainda é muito grave.

Para muitos de nós que vivemos isolados, é uma experiência totalmente nova. Possui não apenas uma dimensão social ou psicológica, mas também uma forte repercussão espiritual. Isso se aplica a todos, especialmente a nós, cristãos. Uma situação que também toca, no seu âmago, a nossa espiritualidade específica como Focolares. Nós somos feitos para a comunhão e a unidade. Saber como criar relacionamentos é talvez a qualidade mais característica de uma pessoa que conheceu e acolheu o espírito de Chiara. E precisamente essa dimensão poderia parecer agora limitada ao máximo.

Mas o amor não se deixa limitar. Esta é a grande experiência que está sendo feita nesses dias dramáticos e dolorosos. Mais do que nunca e de todos os lugares, recebo testemunhos de pessoas que colocam em ação a criatividade e a imaginação e que se doam a outras pessoas, mesmo em condições difíceis e incomuns: crianças que contam pequenos e grandes atos de amor que fazem para superar as dificuldades de ficar em casa; adolescentes que compartilham nas redes sociais um turno de oração; empresários que vão contra a corrente para não tirar proveito da emergência, mas se colocam a serviço do bem comum, prejudicando os ganhos pessoais. São muitas as maneiras com as quais se procura oferecer apoio e conforto: com a oração em primeiro lugar, com um telefonema, uma mensagem WhatsApp, um e-mail…, para que ninguém se sinta sozinho, não só aqueles que estão em casa, mas também os doentes e todas as pessoas que fazem o máximo para tratar, consolar, acompanhar, todos aqueles que sofrem as consequências desta situação.

E existem mensagens de solidariedade que nos ajudam a escancarar o coração também para além da emergência do coronavírus, como o dos jovens na Síria que, apesar de suas condições dramáticas, encontram forças para pensar em nós na Itália. São os jovens que nos ensinam que essas experiências compartilhadas nas redes sociais podem se multiplicar, porque também o bem poder ser contagioso.

© Horacio Conde – CSC Audiovisivi

Através desse testemunho amadureceu em mim uma convicção: o centenário de Chiara Lubich não foi suspenso e o lema «Celebrar para encontrar» é mais atual do que nunca.

É o nosso Pai no Céu, ou talvez a própria Chiara, que nos convida a viver este ano jubilar de uma maneira mais profunda e autêntica. Para além dos condicionamentos, inclusive na impossibilidade de celebrar juntos a Eucaristia, estamos redescobrindo a presença de Jesus, viva e forte no Evangelho vivido, no irmão que amamos e no meio de todos aqueles que – mesmo à distância –  estão unidos em seu nome.

Mas, de maneira especial, a nossa fundadora nos faz redescobrir o seu grande amor, o seu Esposo: Jesus Abandonado — «o Deus de Chiara», como o arcebispo de Trento, dom Lauro Tisi, gosta de chamá-lo. É o Deus que foi até o limite para acolher em si mesmo toda experiência limite e dar-lhe valor. É o Deus que se fez periferia para nos fazer entender que, mesmo nas experiências mais extremas, ainda podemos encontrá-Lo. É o Deus que tomou sobre si todo tipo de dor, de angústia, de desespero e de melancolia para nos ensinar que, quando acolhemos a dor e a transformamos em amor, encontramos uma fonte inesgotável de esperança e de vida.

Eis aqui o desafio desta emergência planetária: não fugir, não tentar apenas sobreviver para chegar sãos e salvos à meta, mas enraizar-se bem no presente, olhando, aceitando e enfrentando todas as situações dolorosas – pessoais e dos outros – para transformá-las em um lugar de encontro com “Jesus Abandonado” e encontrar, no amor a Ele, a força e a criatividade para construir relacionamentos de fraternidade e de amor, também nesta situação difícil.

Para Chiara, cada encontro com “o Esposo”, com Jesus Abandonado, era uma festa, era uma celebração. Encontrando-o – estou convencida – encontraremos também Chiara, e aprenderemos, como ela procurou fazer, a olhar para todas as situações com os olhos de Deus. Também nós poderemos repetir a experiência de Chiara e de suas amigas, que, de certa forma, sequer perceberam a guerra ou seu fim, porque, fixas em Deus e no seu amor, a realidade que viviam, o amor concreto que circulava entre elas e com muitos em sua cidade, era mais forte que tudo.

Não sabemos quanto tempo durará essa emergência: talvez semanas ou meses. No entanto, vão passar. O mundo que encontraremos no fim do túnel, estamos construindo agora.

de Maria Voce

Fonte: Osservatore Romano – https://www.vaticannews.va/it/osservatoreromano/news/2020-04/radicarci-bene-nel-presente.html